Como números adimensionais podem auxiliar na identificação de problemas de processo e produto na indústria da borracha
Uma ferramenta de raciocínio para mistura, extrusão e vulcanização
Resumo
A indústria da borracha frequentemente enfrenta problemas de processo e defeitos de produto cuja origem física não é claramente identificada, sendo muitas vezes tratados por tentativa e erro. Este trabalho propõe o uso de números adimensionais como ferramenta de raciocínio para identificar os fenômenos dominantes nas etapas de mistura, extrusão e vulcanização. O objetivo não é determinar valores absolutos, mas compreender as variáveis independentes que governam o comportamento do sistema. São discutidos os números de Weissenberg (Wi), Brinkman (Br), Fourier (Fo), Biot (Bi) e Damköhler (Da), correlacionando-os com defeitos industriais típicos e casos reais de aplicação.
Palavras-chave: números adimensionais; processamento de borracha; reologia; transferência de calor; vulcanização.
1. Introdução
Problemas recorrentes na indústria da borracha incluem variações dimensionais, instabilidades de extrusão, subcura no núcleo, pré-vulcanização e falhas prematuras. Frequentemente, a abordagem adotada baseia-se em ajustes empíricos de variáveis de processo.
Entretanto, o comportamento físico do sistema não depende do tamanho absoluto do equipamento, mas da relação entre forças concorrentes que governam o fenômeno. Essa percepção fundamenta o uso de números adimensionais como ferramenta de análise.
2. Fundamentação conceitual
A análise dimensional estabelece que, se um fenômeno depende de n variáveis físicas e envolve k dimensões fundamentais, ele pode ser descrito por (n − k) grupos adimensionais. Esses grupos permitem identificar quais efeitos físicos são dominantes.
Como exemplo histórico, o número de Reynolds é dado por:
Re = ρvL / μ
Em compostos elastoméricos, devido à elevada viscosidade dinâmica, obtém-se:
Re ≪ 1
O regime é essencialmente viscoso. Portanto, embora relevante conceitualmente, o número de Reynolds não é determinante para a maioria dos defeitos industriais em elastômeros.
3. Números adimensionais aplicáveis ao processamento de borracha
3.1 Número de Weissenberg (Wi)
Wi = λγ̇
onde λ é o tempo de relaxação e γ̇ é a taxa de cisalhamento.
Quando Wi ≫ 1, o comportamento elástico torna-se dominante, favorecendo o armazenamento de energia elástica.
Defeitos associados:
- die swell
- melt fracture
- sharkskin
- tensões residuais
- instabilidade dimensional
Caso industrial. Em uma bucha de NR, a alteração do processo de mistura de uma para duas fases, com 24 h de descanso, reduziu o refugo de 25–30% para 2–5%. O período de descanso permitiu relaxação estrutural e redução de tensões internas acumuladas.
3.2 Número de Brinkman (Br)
Br = μv² / kΔT
Compara a geração viscosa de calor com a capacidade de dissipação térmica.
Em elastômeros, devido à alta viscosidade e à baixa condutividade térmica, Br pode assumir valores elevados.
Defeitos associados:
- scorch na mistura
- black scorch em EPDM
- pré-vulcanização na extrusora
- heterogeneidade térmica
Se o defeito se intensifica com o aumento de rotação, há forte indicação de dominância de dissipação viscosa.
3.3 Número de Fourier (Fo)
Fo = αt / L²
Relaciona difusão térmica com tempo de exposição.
Como a difusividade térmica da borracha é baixa, o calor penetra lentamente em peças espessas.
t ∝ L²
O tempo necessário para uniformização térmica cresce com o quadrado da espessura.
Defeitos associados:
- subcura no núcleo
- gradiente de dureza
- porosidade interna
- retração diferencial
3.4 Número de Biot (Bi)
Bi = hL / k
Indica se a resistência térmica dominante está na interface molde–peça ou no interior do material.
Em elastômeros, frequentemente:
Bi > 0,1
Gradientes térmicos internos tornam-se relevantes.
3.5 Número de Damköhler (Da) aplicado à vulcanização
Da = ttransporte / treação ≈ (L²/α) / t90
Compara o tempo de difusão térmica com o tempo característico de reação de cura.
Quando Da ≫ 1, a reação ocorre mais rapidamente do que a uniformização térmica, podendo resultar em casca curada e núcleo subcurado.
Caso industrial. Em coxins automotivos, a cinética de cura do adesivo era superior à do composto, resultando em descompasso de vulcanização. A substituição por adesivo de cinética menos agressiva solucionou o problema.
4. Metodologia proposta
- Definir claramente o defeito.
- Identificar a etapa do processo envolvida. Utilize fluxogramas para isso.
- Selecionar o número adimensional correspondente ao fenômeno dominante.
- Identificar as variáveis independentes associadas.
- Medir dados mínimos relevantes.
- Aplicar delineamento experimental (DOE), se necessário.
5. Limitações
O uso de números adimensionais não substitui experimentação nem modelagem detalhada. Trata-se de ferramenta de análise para identificação de dominância física e escolha adequada de variáveis de processo.
6. Conclusão
A aplicação estruturada de números adimensionais permite reduzir abordagens puramente empíricas, identificar fenômenos dominantes e orientar a seleção racional de variáveis industriais.
Referências
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